Gabriel Mateus: Como Fazer da Cozinha uma Farmácia

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Neste artigo apresento-vos o Gabriel Mateus. Fundador e presidente da Associação Projeto Safira. O Projeto Safira é uma Associação sem fins lucrativos, fundada em 2013, que presta apoio a doentes oncológicos e promove ações de esclarecimento sobre a prevenção do cancro e promoção da saúde. No âmbito das atividades promovidas pela Associação, Gabriel Mateus criou um curso teorico-prático sobre o papel da alimentação na prevenção do cancro e de outras doenças crónicas com o nome “Fazer da Cozinha uma Farmácia”.

Gabriel Mateus tem Mestrado em Nutrição Clínica (Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz), assim como um curso prático de Nutrição e Dietética (Instituto Profissional de Estudos da Saúde). Além disso é licenciado em Ciência das Religiões (Universidade Lusófona) com Mestrado em Western Esotericism (Universidade de Exeter) e deu aulas na Universidade Lusófona em cursos livres e no Mestrado de Ciência das Religiões.

E aqui vai responder a algumas perguntas e fazer-nos, a todos, reflectir.

1 . Olá Gabriel, há pessoas que vale a pena conhecer e tu és uma delas! Fala-nos um bocadinho do trabalho que desenvolves?

Gabriel Mateus – Aquilo que ocupa a maior parte do meu tempo e energia atualmente é o resultado de uma experiência pessoal na qual me deparei com aquela que me parece ser uma das experiências mais dolorosas de todas: a doença de um filho. Foi em 2010, e a minha filha mais nova, na altura com 4 anos, adoeceu com um tumor maligno no rim. Perante tal acontecimento, o melhor que podemos fazer é assumir uma atitude proativa e procurarmos reunir as melhores armas para um combate tão doloroso. Nesse sentido, procurei sempre participar ativamente o mais possível ao longo do caminho de tratamento e recuperação da Safira. Essa dedicação levou-me a tomar consciência da importância da alimentação e estilo de vida na prevenção do cancro. Foi de tal forma inteira e intensa a entrega a esse caminho de investigação que rapidamente se tornou a minha principal ocupação pessoal e profissional. Inicialmente a busca de conhecimento tinha como finalidade tratar da Safira, mas rapidamente todo o esforço que fizemos na esfera pessoal transbordou para uma dimensão pública e coletiva. Penso mesmo que o melhor que podemos fazer perante uma experiência tão limite como esta será convertermos toda essa dor em trabalho e serviço à comunidade. Tem uma função de quase sublimação o facto de conseguirmos encontrar um propósito para uma situação assim. Penso por isso que uma grande parte de quem sou e do que faço hoje se deve à experiência de lidar com a doença da Safira.

As várias dificuldades que passámos na altura em que procurávamos respostas e soluções para o nosso problema, criaram em mim um imperativo ético e cívico de contribuir com tudo o que estivesse ao meu alcance para uma discussão social e pública sobre o papel ativo do doente na procura de tratamento, assim como sensibilizar a população para o papel da alimentação e estilo de vida na prevenção do cancro. Para isso criámos uma Associação sem fins lucrativos que pudesse servir esses propósitos. Atualmente as atividades da Associação centram-se fundamentalmente na prevenção e promoção de saúde através de estilos de vida saudáveis. Para tal, criei um curso teórico-prático sobre o papel da alimentação na prevenção de cancro e outras doenças crónicas a que chamei “Fazer da Cozinha uma Farmácia”.

2. Podes explicar-nos melhor, o que significa “Fazer da Cozinha um Farmácia”?

G.M – A cozinha e o prato são espaços onde muito do nosso futuro individual e coletivo se passa. As escolhas que fazemos diariamente determinam em grande medida aquilo que iremos encontrar mais à frente no caminho. Temos por isso ao nosso alcance a solução para muitos dos problemas com os quais nos deparamos. Comer bem é antes de mais um ato altruísta, para connosco próprios, mas também para com os outros. Mais do que falarmos de dietas saudáveis, hoje é mais adequado falar em dietas sustentáveis. Isto porque além dos efeitos para a saúde de uma alimentação saudável, aquilo que comemos tem implicações muito significativas para ao ambiente. Perante um cenário de alterações climáticas não temos outra hipótese senão rever os nossos hábitos alimentares e optarmos por uma dieta composta por alimentos cujo contributo para os gases com efeitos de estufa são menores. Essas dietas são as de base vegetal, ou seja, dietas ricas em vegetais, frutos, leguminosas, cereais integrais, frutos secos e sementes. Nesse padrão alimentar rico e colorido, os produtos de origem animal ocupam um espaço muito mais reduzido do que costumam ocupar numa dieta típica ocidental. Uma dieta ocidental é feita de excessos em quase tudo menos em alimentos vegetais saudáveis. Aquilo que nos devemos propor fazer é preencher de tal forma o nosso prato com alimentos vegetais, os quais são imensos e incrivelmente saborosos, que passamos a ter cada vez menos espaço para os outros produtos. Não precisamos de os eliminar completamente, mas deixamos que ter tanta disponibilidade para eles. Com o tempo deixamos de sentir tanta necessidade e percebemos que somos mais felizes com os nossos novos ingredientes. E descobrimos que passamos a gostar mais dos alimentos de gostam de nós e não daqueles que nos maltratam. Não deve ser muito diferente daquilo que acontece com as nossas relações pessoais!

3. Este workshop que vai começar no dia 12 de Outubro, consiste em quê?

G.M – Dia 12 de Outubro começa a 8ª edição do curso “Fazer da Cozinha uma Farmácia”. Trata-se de um curso teórico-prático com a duração de 3 meses o qual tem como objetivo transmitir noções bem fundamentadas de uma dieta de base vegetal, assim como dar a conhecer as recomendações para a prevenção do cancro e de outras doenças crónicas. A proposta deste curso e também o maior desafio que temos atualmente, consiste em transformar todo este conhecimento disponível em prática e poder pessoal, o que procuramos fazer nas aulas práticas. Nessas aulas, cada refeição é por isso planeada para concentrar de forma equilibrada, mas também apelativa e saborosa, as melhores propriedades dos alimentos para a prevenção do cancro e de outras doenças. No final, esperamos que os formandos tenham uma ideia mais clara e fundamentada sobre os benefícios de uma dieta de base vegetal e que se sintam capazes e inspirados para melhorar o seu estilo de vida e contribuir para um mundo mais sustentável.

4. Nesse sentido, que hábitos achas que devemos mudar rapidamente?

G.M- Os hábitos são das coisas mais difíceis de alterar no comportamento dos seres humanos. Não devemos por isso esperar que essas alterações aconteçam de forma instantânea, sem investirmos muita da nossa energia e sem termos uma motivação especial. No meu caso, tive a motivação que considero a mais poderosa de todas: o amor. Quando vemos aquilo que podemos mudar não só para nós, mas também para os outros ao fazermos uma alimentação sustentável, isso desperta sentimentos que penso serem importantes para nos inspirar na mudança. Além disso, acho importante termos uma perspetiva positiva sobre essas mudanças, evitando olhar tudo aquilo que perdemos quando adotamos comportamentos mais saudáveis, mas vendo e sentindo tudo aquilo que ganhamos. Não só ganhamos em saúde e qualidade de vida, mas também em experiências e uma enorme variedade de opções alimentares que surgem no nosso horizonte. Mais importante do que vermos e lamentarmos aqueles alimentos que vão deixando de ocupar tanto espaço no nosso prato, será estarmos tão plenos e preenchidos com alimentos saudáveis que não temos mais espaço para os outros. Então, acho que antes de tudo devemos mudar a nossa percepção sobre o que é ser saudável e comer bem. Não se trata do que não podemos comer, mas mais do que passamos a comer em maior abundância. Nesse sentido, um prato saudável deve ser colorido e preenchido principalmente por vegetais, frutos, leguminosas, cereais integrais, frutos secos e sementes. Estes devem ser os protagonistas principais do nosso filme. Os produtos animais como peixe, carnes magras, laticínios magros e ovos devem ser vistos como figurantes. Não são os vilões, mas têm participações pequenas no filme. Fazer esta inversão dos papéis dos ingredientes no nosso prato é uma das mudanças mais importantes a serem realizadas.

5. Mas precisamos mudar rapidamente a forma como as nossas crianças se alimentam. Que erros estão a ser cometidos para que tenhamos uma taxa de obesidade infantil elevada? O que pode ser feito?

G.M- É extremamente fácil hoje termos uma situação de obesidade infantil quando vivemos num ambiente obesogénico, com tantas formas de apelar ao consumidor mais vulnerável de todos: a criança. Acho mesmo que deveria existir legislação que proibisse publicitar alimentos pouco saudáveis para crianças. É difícil resistir a produtos coloridos e cheios de açucar, ilustrados por bonecos e até personagens dos filmes favoritos das crianças. Sermos pais conscientes e responsáveis hoje é por isso muitas vezes uma atividade contracorrente que exige esforço e dedicação. Atualmente, os produtos matinais das crianças deveriam ser mais considerados sobremesas do que pequenos-almoços, tanta é quantidade de açúcar que contêm. O consumo de açúcares simples em Portugal é em média 90 g/dia, sendo que crianças com menos de 10 anos consomem 100 g/dia e adolescentes consomem 99 g/dia. A OMS recomenda que não se ultrapasse os 50 g de açúcares simples por dia sugerindo mesmo que o seu consumo seja inferior a 25 g por dia. Por outro lado, mais de metade da população não cumpre a recomendação da Organização Mundial da Saúde de consumir mais de 400 g/dia de fruta e produtos hortícolas (equivalente a 5 ou mais porções diárias). No caso das crianças, esse valor é ainda mais elevado, com 69% a não atingir a quantidade mínima recomendada. A juntar a isso tudo temos índices de sedentarismo muitos elevados. Temos por isso, um problema sério de saúde pública que irá necessitar de uma intervenção concertada de todos nós. Mas claro, o melhor exemplo deve começar em casa, e nós pais devemos ser os principais modelos das nossas crianças. Para isso, precisamos de nos reinventar nos nossos hábitos alimentares e preencher as nossas mesas de refeições criativas, saborosas e saudáveis. É possível fazer todo o tipo de alimentos e guloseimas que as crianças tanto gostam mas na versão “alimento que nos ama, tal como amamos os nosso filhos”.

6. Há, também, muitas as crianças com problemas numa fase prematura da vida. Qual é, na tua opinião, a causa?

G.M – Serão com certeza muitas variáveis que contribuem para essa situação. O facto é que fizemos enormes avanços no último século em saúde pública a controlar as doenças infetocontagiosas, reduzindo para níveis muito baixos a mortalidade infantil. No entanto, resta-nos agora investir naquilo que é o problema atual mais relevante: as doenças crónicas. Estas doenças estão dependentes na grande maioria de fatores de risco ambientais relacionados com a alimentação e exposição a elementos tóxicos. Sabe-se hoje também que os hábitos alimentares dos pais, induzem alterações epigenéticas nas crianças que podem aumentar o risco de doenças crónicas depois de nascerem. Por isso, embora não haja uma causa única para o facto de surgirem doenças numa fase precoce de vida, os hábitos alimentares poderão ser muito importantes para a saúde do bebé e do futuro adulto. Outra das áreas muito ativas de investigação relaciona a qualidade da microbiota (bactérias do intestino) do bebé, o tipo de nascimento, a amamentação e o excesso de antibióticos, com alterações que podem ter consequência também para a criança. Os pais fazerem uma alimentação de base vegetal, a criança nascer de parto natural e ser amamentada durante pelo menos o primeiro ano de vida e reduzir ao mínimo indispensável a utilização de antibióticos poderá ser útil na prevenção de algumas doenças crónicas.

7. Estará a medicação, em excesso, a ser um problema nas várias gerações?

G.M- Com certeza que o excesso de medicação, como de qualquer coisa, não contribui muito para a nossa saúde. No entanto, a medicação ainda salva mais vidas do que mata. Ainda bem que existem medicamentos, e muito dos problemas que antes nos matavam, hoje conseguimos ultrapassar graças a essa medicação. No entanto, mais importante do que tomar medicamentos para controlar uma condição de saúde, será obviamente evitar alguma vez precisar deles. Se investirmos toda a nossa energia na prevenção, conseguimos reduzir muito a necessidade de nos medicarmos. Uma grande parte dos problemas crónicos que têm de ser resolvidos recorrendo a medicamentos, muitos deles tomados de forma permanente, podem ser evitados através do mais poderoso medicamento de todos: o estilo de vida! Não existe nenhum medicamento no mercado que elimine 80% dos problemas crónicos de saúde, no entanto o estilo de vida consegue. Hoje, por exemplo, existem formas eficazes de reduzir os níveis de colesterol, evitando assim complicações cardiovasculares. Seria, no entanto, mais razoável se reduzíssemos os elementos da nossa vida que contribuem para esses fatores de risco, comendo menos gorduras saturadas, por exemplo. É por isso um sinal de inteligência colocarmo-nos do lado da solução que representa os maiores benefícios para a saúde, mas também para a qualidade de vida.

8. Que conselhos nos queres deixar?

G.M- Penso que o melhor conselho que posso deixar é procurarmos ser felizes a cuidar de nós, dos outros e do mundo, enquanto comemos refeições deliciosas. Para isso, precisamos de olhar para o prato como um espaço de poder pessoal que pode mudar o mundo. Aquilo que pomos lá dentro, vamos ver espelhado em nós e à nossa volta. Se colocarmos lá alimentos que nos amam, vamos distribuir esse amor por todos. Não perdemos nada ao nos alimentarmos de forma saudável. Ganhamos, isso sim, uma variedade infinita de coisas boas.

9. Desafia quem nos lê a participar nos teus worshops, que vão decorrer em Lisboa, no Porto e na Madeira…

G.M- Os nossos cursos são uma oportunidade para transformar a nossa percepção sobre a alimentação e adquirirmos ferramentas para podermos incorporar esses conhecimentos na nossa vida. A experiência conjunta entre todos tem sido muito gratificante ao longo de todas as edições que já fizemos. Será por isso um prazer imenso partilharmos mais um momento de descoberta em conjunto nas várias regiões onde queremos desenvolver o nosso trabalho. Aprendermos a cuidar da nossa alimentação é um dos melhores contributos que podemos fazer por tudo e por todos! Até já!

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Para mais informações sobre o curso e inscrições: eat2care@gmail.com

Facebook: Fazer da farmácia uma cozinha

Link participação do Gabriel, no Grande Tarde : https://vimeopro.com/user32911642/alimentacao/video/182667053

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